Cinema: Coringa

Trazido do vasto universo dos quadrinhos, Coringa é uma história de origem, com uma visão muito real e perturbadora do passado de um dos maiores vilões das histórias em quadrinhos. A trama gira em torno de Arthur Fleck, um civil de Gotham que tenta levar a vida como palhaço, apresentando-se em ruas, pequenas lojas e hospitais, enquanto pesquisa para se tornar um comediante de stand-up.

Não é o típico filme de histórias em quadrinhos que estamos acostumados. Definitivamente não um filme fácil de ver, sobretudo se você for uma pessoa empática. Tanto pelo sofrimento emocional do personagem, quanto pela composição das cenas de violência – que não são muitas, mas são reproduzidas como verdadeiras brutalidades e crueldades, regados por uma intensa e repentina insanidade do personagem, que intimida o espectador e nos faz perguntar: o que será que ele vai fazer agora?

Atenção para os spoilers. Caso não tenha visto o filme, leia por sua conta e risco.

Já em uma de suas primeiras cenas, Arthur tem sua placa roubada durante o serviço, e é espancado em um beco cheio de lixo. Um de seus então amigos do trabalho o entrega uma arma de fogo, “para sua proteção”. Arthur, que sofre de transtornos mentais, é ingênuo e inexperiente, se assusta com aquilo, mas fica com a arma. Conforme Gotham decai, cansado de ser menosprezado e maltratado por todos, Arthur, caracterizado de palhaço, está voltando para casa de metrô e mais uma vez sofre uma tentativa de agressão, dessa vez ele reage, usa a arma e mata três homens – ali o vilão começa a despertar.

O personagem interpretado por Joaquin Phoenix é impecável, ele incorpora perfeitamente aquele cara meio doce e ingênuo, mas também estranho, com uma risada histérica que surge nos momentos mais inoportunos. Uma pessoa como nós, que dá duro para ganhar a vida, se decepciona quando é traído e abandonado por quem ele considerava seu amigo, sofre quando descobre ter sido enganado a vida inteira por sua mãe e surta ao perceber que não pode contar com ninguém mais além de si mesmo.

construção de sua insanidade é muito bem trabalhada e acompanhar sua paixão, ou o que ele acredita ser sua missão de vida, que é ser comediante, se transformar lentamente em ódio, fogo e violência é ainda mais interessante do que apenas ver um personagem no auge de sua loucura, sem sequer saber ou compreender os seus motivos (não que dê pra “justificar” os atos loucos dele, claro).

Uma cena muito intensa para mim é a que Arthur está se maquiando, enquanto envolvido pelo áudio de notícias sobre os crimes em Gotham, o personagem esboça um sorriso forçado e segura com os dedos os cantos do rosto, alargando uma expressão caricata de falsa felicidade, deixando uma lágrima cair de seu olhar tortuoso, que desce enlameada pela maquiagem.

É um exemplo nítido do quanto a brutalidade do mundo e a crueldade da invisibilidade das doenças mentais podem moldar nossa sociedade. Em outro momento, Arthur afirma que “a pior parte de ter uma doença mental é que a sociedade espera que as pessoas ajam como se não as tivessem” – outra cena extremamente intensa para mim. E certamente para todas as pessoas que lidam diariamente, diretamente ou não, com transtornos e doenças mentais.

A relação de deslocamento e isolamento das pessoas que sofrem de doenças mentais é tão bem explorada que, simultaneamente, o filme consegue nos fazer sentir terror, mas também empatia por um homem caótico, brutal, cruel e claramente com graves problemas mentais – esses que vão muito além de desconfortos sociais. O roteiro e a visão estética da direção são magníficas, mantendo essa dubiedade sem enterrar a empatia e sem engrandecer ou justificar as ações do vilão que, agora, odiamos amar.

É um filme que mexe muito com as emoções. Tudo é amplificado, desestabilizado, sensibilizado e toca verdadeiramente o expectador. O tom sombrio dos quadrinhos da DC surge na tela de forma muito pertinente no momento que vivemos. Coringa chega e se firma como uma obra grandiosa, sombria e violenta, mas com a dose certa de sensibilidade, empatia, reflexão sobre inclusão e com grandes críticas sociais.

Imagens: Reprodução.

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